Magistratura: a necessária alternância entre a promoção por antiguidade, a remoção e a promoção por merecimento. Resposta

Segundo os ditames da Constituição Federal, Lei Complementar de iniciativa do Supremo Tribunal Federal disporá sobre o Estatuto da Magistratura e deverá observar o princípio de alternância entre os critérios de merecimento e antiguidade, nas promoções de entrância para entrância (CF, Art. 93, caput).

Até o advento no mundo jurídico deste Estatuto, a matéria pertinente será disciplinada pelo texto da Lei Complementar n. 35/79, LOMAN (Lei Orgânica da Magistratura Nacional) que foi recepcionada pela nova ordem jurídica vigente (ADI 1.985, ADI 2.580 e AO 185).

Entretanto,  consigno que “a aplicabilidade das normas e princípios inscritos no art. 93 independe da promulgação do Estatuto da Magistratura, em face do caráter de plena e integral eficácia de que se revestem aqueles preceitos.” (ADI 189, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 9-10-91, Plenário, DJ de 22-5-92).

Com relação a alternância do critério merecimento e antiguidade, esta deve ocorrer considerando a respectiva entrância, e não as vara, comarcas ou outra entrância distinta. Neste diapasão o voto do Conselheiro (Ministro) João Oreste Dalazen no Pedido de Providência 200810000023133 (CNJ)

(…) a alternância de promoções mostra-se mais conveniente e razoável em cada entrância. Caso contrário, haveria o risco de não haver promoção por antigüidade (ou por merecimento) durante longo período numa mesma entrância, dado que muitas Comarcas poderiam vagar apenas para promoção pela outra espécie. Esse não parece ser o espírito da norma Constitucional. Entendo que o Poder Constituinte Originário, ao prever a obrigatoriedade de promoção “de entrância para entrância, alternadamente, por antigüidade e merecimento” [grifo nosso], almejou que, a cada promoção, se alternasse a forma —— merecimento e antigüidade ——, não importando a ordem de vacância na própria Comarca. A melhor interpretação que se faz a esse dispositivo é para reconhecer que a alternância se processa por entrância e não na própria Comarca em que houve vacância.

Neste sentido, colho a doutrina de JOSÉ HORÁCIO CINTRA GONÇALVES PEREIRA: “Essa alternatividade imposta pela Constituição diz respeito ao cargo, isto é, se determinado cargo de determinada entrância é colocado em concurso, por exemplo, por antiguidade, o outro cargo que vagar da mesma entrância deverá ser colocado por merecimento.” (PEREIRA, José Horácio Cintra Gonçalves, A Reforma do Poder Judiciário, São Paulo: Método, 2005, p. 132)

A alternância, portanto, se processa a partir da sucessiva vacância de cargos na mesma entrância e não em função da forma do último provimento naquela específica Comarca ou Vara.

Sobre as promoções e remoções, dispõe a LOMAN:

Art. 81 – Na Magistratura de carreira dos Estados, ao provimento inicial e à promoção por merecimento precederá a remoção.

§ 1º – A remoção far-se-á mediante escolha pelo Poder Executivo, sempre que possível, de nome constante de lista tríplice, organizada pelo Tribunal de Justiça e contendo os nomes dos candidatos com mais de dois anos de efetivo exercício na entrância.

§ 2º – A juízo do Tribunal de Justiça, ou de seu órgão especial, poderá, ainda, ser provida, pelo mesmo critério fixado no parágrafo anterior vaga decorrente de remoção, destinando-se a seguinte, obrigatoriamente, ao provimento por promoção.

Do texto legal, extraímos que a remoção precede o provimento inicial e promoção por merecimento. Podendo, ainda, ser efetuada a juízo do Tribunal de Justiça ou de sua Corte Especial uma segunda remoção, para ocupar vaga decorrente desta espécie (remoção). Contudo, a peremptória ao afirmar que a seguinte, obrigatoriamente deverá ser provida pela promoção.

por provimento inicial, entenda-se não somente o decorrente do preenchimento do cargo inicial da carreira (1ª entrância) por juiz substituto, mas o de  cargo recém-criado em qualquer instância:

“Remoção. Magistratura Estadual. Artigo 156 do Regimento Interno do Tribunal de Justiça do Maranhão. Artigo 81 da LOMAN. Provimento inicial. – “I) Para efeito de remoção na magistratura estadual, o art. 81 LOMAN, ao utilizar a locução ‘provimento inicial’, não se identifica e nem se restringe a ‘comarcas de primeira entrância’. A locução ‘provimento inicial’ traduz-se no primeiro provimento do cargo criado no curso da carreira da magistratura, seja qual for a entrância da comarca na qual haja sido criado o cargo. II) Assim, instalada nova unidade jurisdicional, independentemente da entrância, ao provimento inicial precederá a remoção. III) Consulta a que se responde afirmativamente” (CNJ – PP 200710000015661 – Rel. Cons. Min. João Oreste Dalazen – 62ª Sessão – j. 13.05.2008 – DJU 02.06.2008).

Tratando-se de vaga destinada a promoção por antiguidade, está não pode ser preterida pela remoção ou promoção por merecimento:

ADMINISTRATIVO. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. PRELIMINAR DE AUSÊNCIA DE REGULARIDADE FORMAL. REJEIÇÃO. MAGISTRATURA ESTADUAL. VAGA A SER PROVIDA MEDIANTE PROMOÇÃO PELO CRITÉRIO DE ANTIGÜIDADE. ATO QUE DETERMINA REMOÇÃO. ART. 81, CAPUT, DA LOMAN. RECURSO ORDINÁRIO PROVIDO.

1.  Havendo os recorrentes apresentado razões suficientes para reformar o acórdão recorrido, o recurso deve ser conhecido. Preliminar de ausência de regularidade formal, argüida pelo Ministério Público Federal, rejeitada.

2. Em mandado de segurança, a anulação do ato impugnado deve implicar algum benefício, sob o ponto de vista jurídico ou patrimonial, para o impetrante, tal como ocorre no caso em exame, em que Juízes de Direito de 2ª Entrância, que figuram dentre os mais antigos da lista de antigüidade, insurgem-se contra o ato que removeu magistrado de 3ª Entrância para vaga destinada à promoção pelo critério de antigüidade.

3. A remoção precede tão-somente à promoção por merecimento e ao provimento inicial na magistratura estadual, segundo o art. 81, caput, da LOMAN. A vaga destinada à promoção por antigüidade não pode ser, de forma preferencial, preenchida por remoção ou, no caso, relotação, conforme a denominação dada pela legislação estadual, que nada mais significa do que a remoção na mesma comarca.

4. Recurso ordinário provido.

(STJ – RMS 21875 / GO – Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima – DJ 17/12/2007 p. 227).

RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. MAGISTRATURA ESTADUAL DO ESTADO DE PERNAMBUCO. PROMOÇÃO POR ANTIGUIDADE. NULIDADE DO ATO DE REMOÇÃO. JUÍZES DA 2ª ENTRÂNCIA NÃO INTEGRANTES DENTRE OS MAIS ANTIGOS NA LISTA DE ANTIGUIDADE. ILEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM E DEFICIÊNCIA DA PROVA PRÉ CONSTITUÍDA. RECURSO ORDINÁRIO A QUE SE NEGA PROVIMENTO.

1. Consoante jurisprudência do STJ, a remoção precede tão somente à promoção por merecimento e ao provimento inicial na magistratura estadual, segundo o art. 81, caput, da LOMAN. A vaga destinada à promoção por antiguidade não pode ser, de forma preferencial, preenchida por remoção.

2. Os juízes de 2ª entrância que figurarem entre os mais antigos na lista de antiguidade, têm, em tese, o direito subjetivo de ver publicado edital destinado ao preenchimento de vaga existente em vara a ser preenchida pelo critério de promoção por antiguidade, recaindo-lhes legitimidade para o ajuizamento da ação, o que não aconteceu no presente caso.

3. No presente caso, os recorrentes são juízes de direito de 2ª entrância do Estado de Pernambuco, mas não demonstraram figurar dentre os mais antigos da correspondente lista de antiguidade.

4.  Ademais, não há alguma prova, nos autos, de que a última promoção ocorrida na 3ª entrância tenha observado o critério de merecimento, para, em observância a alternância dos critérios, seja determinado ao Tribunal a quo o da antiguidade

5. Recurso Ordinário a que se nega provimento.

(STJ – RMS 27553 / PE – Rel. Ministro CELSO LIMONGI (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/SP) – Sexta Turma – DJe 21/09/2009)

Com efeito, existe uma alternância (prioritária) que deve ser observada: 1o Promoção por antiguidade;  2o Remoção (podendo ser realizada até duas consecutivas); 3o Promoção por Merecimento.

Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça, ao julgar o PROCEDIMENTO DE CONTROLE ADMINISTRATIVO  0005791-62.2009.2.00.0000 (sessão realizada em 27/04/2010), decidiu a precedência da promoção por antiguidade sobre a remoção. Do voto do Relator deste PCA, Conselheiro Nelson Tomaz Braga destacamos:

A LOMAN e a jurisprudência deste CNJ (PCA 26080, Locke; PP 23133, Dalazen) são claros ao estabelecer que o preenchimento de vagas na magistratura estadual deve respeitar a ordem de alternância: 1º – promoção por merecimento; 2º remoção; 3º promoção por merecimento, sendo facultada ainda a realização de 2 remoções em sequência, uma destinada ao provimento inicial ou anteriormente à promoção por merecimento, e a seguinte para preencher os cargos vagos em virtude da remoção anterior (vedada apenas uma terceira remoção subseqüente, nos termos do art. 81, § 2º da LOMAN.

Por tudo exposto, concluímos que: vagando, por exemplo,  3 (três) varas na terceira entrância, todas não podem ser todas colocadas em concurso de remoção.  2 vagas deverão ser oferecidas também para promoções (salvo na possibilidade legal de 2 remoções seguidas, sendo vedada uma 3 remoção).

A regra de realizar sucessivas remoções na entrância, preterindo a alternância com a promoção, viola os preceitos da LOMAN e o entendimento do STJ e CNJ citados acima.

PROCEDIMENTO DE CONTROLE ADMINISTRATIVO  0005791

PEDIDO DE PROVIDÊNCIAS N.º 200810000023133

PROCEDIMENTO DE CONTROLE ADMINISTRATIVO N. 0000920-52.2010.2.00.0000

About these ads

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s