Ser religioso ou ser cristão? 11

Recebi por e-mail este texto. Nada sei sobre a veracidade do fato narrado, mas serve como uma excelente lição acerca da diferença entre a religiosidade  e o ser (verbo) cristão no sentido prático da palavra (tratado no texto como espiritualidade).

“O texto mais lúcido que li sobre o episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com deficiência cerebral para entregar ovos de Páscoa. Uma parte dos atletas recusaram-se a entrar na entidade e preferiram ficar dentro do ônibus do clube, sob a alegação de que são evangélicos.


Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso cada vez mais me convenço de que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé.

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo, ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.

O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz. Os valores espirituais agregam pessoas, aproximam os diferentes, fazem com que os discordantes no mundo das crenças se dêem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero e, inclusive, religião.

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.


Ed René Kivitz, cristão, pastor evangélico, e santista desde pequenininho.”

  1. Muito bom, mesmo!

    O texto serve de alerta a que, em vigília, não queiramos ser “mais realistas que o próprio rei”.

    No epicentro espiritual do cristianismo, segundo as escrituras, o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo ensinava, transmitia e praticava posturas de repúdio contra pseudotradições religiosas (judaicas), sempre que estas serviam para distanciar/separar os homens, uns dos outros (p.ex., respeito sabático; ingestão de carne de porco; sacrifícios materiais; etc).

    O belo é que, preconizando espiritualidade, o verdadeiro cristianismo repudia o “patrulhamento” e a “escravizdão”, pelos costumes/tradições.

    Em particular, minha condição hereditária gentia e a adoção filial divina pelo Deus-Pai Santíssimo (em que pese a rejeição judaica, na qual até Pedro incidiu em erro) é a MAIOR PROVA da primazia espiritual frente à religiosa.

  2. Nem todos os que dizem Senhor! Senhor! entrarão no Reino dos Céus.
    Muitos esquecem que Fé sem obras é morta. Que o caminho que nos leva a Deus é o próximo. Vivemos muito a religião, os dogmas, os ritos, e esquecemos de realizarmos a nossa crença em Jesus. Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a sí mesmo, eis o caminho da salvação.

  3. Belo e lúcido texto, se todos privilegiassem a espiritualidade e valores de alteridade em detrimento da defesa extremada e proselitista dos pressupostos de suas próprias religiões, teríamos um mundo bem mais fraterno e menos intolerante.

  4. Que mensagem espetacular. Ser cristão é realizar as lições do Cristo. As religiões são criações humanas que só fomentam discórdia, desunião e fanatismo. Muito bom exemplo pastor Ed Rene.

  5. Ótimo texto que nos leva a reletir sobre o SEGUNDO mandamento do cristão, o amor ao próximo. Não esqueçamos porém, do PRIMEIRO: AMARÁS O SENHOR TEU DEUS DE TODO O TEU CORAÇÃO.
    Um Abraço George, e mais uma vez, parabéns pelo Blog!

  6. A maioria ficaria no ônibus da hipocrísia religiosa.
    Ai de vós escribas e fariseus hipocritas que são tal qual os sepulcros caiados. Por fora demonstram uma pureza e dedicação a Deus, mas por dentro são pura carniça.

  7. Seria bom se todos os homens que se afirmam “representantes de deus”, pensassem e agissem da mesma forma que o Pastor Ed. Não haveria tanta disputa por ovelhas. Seríamos um só rebanho.

  8. Claro, minha opinião pode divergir das anteriores! Os irmãos me perdoem! Não que eu apoie ou defenda algum tipo de hipocrisia ou que seja um liberal: longe de mim! O que vejo é muitas dicotomias desnecessárias, muitas divisões egoísticas! Vaidade mesmo! Todo cristão e toda cristã é uma pessoa religiosa! Ninguém pode se dizer mais espiritual ou menos espiritual, a não ser que tenha aí uma conotação política não revelada aí! O que pode existir é uma diferença entre pessoas sinceras e gente falsa! E aqui estamos numa situação moral! Veja que digo moral, não moralismo religioso! Sou um cristão presbiteriano, digamos simples membro e quero continuar na tradição reformada! Muito obrigado!

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