O perigo de julgar 6

Roberto Duarte da Paixão Jr.

Meu amigo George é um adorador do Direito, tanto que mantém no blog referência a Francesco Carnelutti, renomado advogado italiano (1869/1965), cuja obra, “As misérias do Processo Penal”, traduzida para nós pelo também advogado José Antônio Cardinalli, revela-nos o seu espírito.

Inicia pela atuação da imprensa, passa pelo uso da toga, das algemas e das celas. Trata dos encarcerados, dos advogados e da parcialidade do juiz, relatando a importância de se historiar os fatos, a vida do réu no processo e argumenta pela temeridade das testemunhas, concluindo pela idéia de que a ação penal não termina para o condenado com a saída do cárcere.

Dizia que o processo penal interessava a opinião pública porque os jornais ocupavam boa parte de suas páginas para a crônica dos delitos. Essa ocupação seria uma forma de diversão, fugindo-se da própria vida para ocupar-se com a dos outros: “a ocupação não é nunca tão intensa como quando a vida dos outros assume o aspecto do drama.”

Afirmava que não havia forma de incivilidade maior do que a de considerar o homem como uma coisa, o que se dava comumente no processo penal. Sustentava que para merecermos o título do homem civilizado seria preciso derrubar a idéia segundo a qual somos diferentes dos que estavam encarcerados.

Entendia que a toga usada nas cortes de justiça se assemelhava às roupas militares, porque continha a idéia de divisa. Quem a usava precisava “distinguir” a sua autoridade daqueles sobre os quais esta seria exercida. Ao ver uma pessoa enjaulada numa corte de justiça da Itália, concluiu: “a solenidade, para não dizer a majestade, dos homens em toga se contrapõe a do homem na jaula”.

Sustentava que o mais pobre de todos era o encarcerado. Recusava-se a chamá-los de delinquentes depois que meditou sobre um dos sermões de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual citou brilhantemente em sua obra incontáveis vezes.

Sobre as algemas e as celas (chamadas de jaulas), dizia que “são um símbolo do direito, e por isso revelam a natureza e a desventura do homem. O homem acorrentado é a verdade do homem; o direito não faz mais do que revelá-la. Cada um de nós está fechado em uma jaula que não se vê”. E arrematou: “Não nos parecemos com os animais porque estamos na jaula, mas estamos na jaula porque nos parecemos com animais.”

Quanto aos advogados, dizia que a experiência deles estava sob o signo da humilhação. Pesava-lhes o direito de pedir quando, na verdade, não se deveria solicitar aquilo que se tem o direito de ter (a liberdade). Afirmou que a soberba é o verdadeiro obstáculo a essa suplica. Escreveu por isso que a advocacia seria um “exercício espiritualmente salutar”. Ensinou que o maior dos advogados “sabe não poder nada frente ao menor dos juízes.”

Em relação à parcialidade do juiz, enunciava que a justiça humana seria uma justiça parcial, pois “a humanidade não é senão resolver-se na sua parcialidade”. Desse modo, tudo o que se pode buscar é diminuir tal parcialidade e indagava: “Como pode fazer o juiz ser melhor daquilo que é?” Em resposta, preceituava que a única via do magistrado era a de sentir a própria miséria.

Indicava que no processo não se deve fazer apenas a história dos fatos, mas sim a do homem, porque somente desse modo conheceríamos o seu espírito.

Em atenção às testemunhas, arguia que os juristas as classificavam na categoria das provas, junto com os documentos. Questionava se tal frieza era necessária, porque o documento é uma coisa e a testemunha é um homem “com seu corpo e com sua alma, com seus interesses e com as suas tentações, com as suas lembranças e com os seus esquecimentos, com sua coragem e com seu medo.”

Por fim, argumentava que o encarcerado saído do cárcere acredita não ter mais essa condição, o que seria um engano, porque a sociedade fixa cada um de nós ao passado e exemplifica: “o rei, ainda quando, segundo o direito, não é mais rei, é sempre rei; e o devedor, porquanto tenha pago o seu débito, é sempre devedor.”

O mestre italiano ainda postou outras idéias, entre as quais destacamos uma especial, não porque inusitada, mas pela capacidade de obrigatoriamente fazer refletir todos os operadores do direito: “o perigo mais grave é atribuir ao outro a nossa alma, ou seja, julgar aquilo que ele sentiu, compreendeu, quis, segundo aquilo que sentimos, compreendemos, queremos.”

Autor: ROBERTO DUARTE DA PAIXÃO JUNIOR (Bacharel em Direito)