Queimação alerta para doença do refluxo 221


refluxogastroesofagicoCLÁUDIA COLLUCCI
da
Folha de S.Paulo

Ela é facilmente confundida com gastrite, azia ou má digestão. Por desconhecê-la, as pessoas se automedicam com antiácidos, o que, inicialmente, alivia os sintomas, mas, com o tempo, só piora a doença, segundo os médicos.

Trata-se da DRGE (Doença do Refluxo Gastroesofágico), que afeta 12% da população na idade adulta, segundo pesquisa Datafolha realizada em nove regiões do país, a pedido do laboratório AstraZeneca.

A doença do refluxo é caracterizada pelo retorno do conteúdo ácido do estômago para o esôfago, em razão do mau funcionamento da esfíncter, válvula que separa os dois órgãos. Assim, o conteúdo gástrico, inclusive o ácido que ajuda na digestão, retorna ao esôfago, que não tem uma
mucosa apropriada para recebê-lo.

Quando não tratado, o refluxo gástrico pode causar inflamação do esôfago, levando, em situações mais extremas, ao estreitamento do órgão (estenose) e ao aparecimento de úlcera. Há estudos que relacionam essas inflamações mais graves ao câncer do esôfago.

“A doença do refluxo é uma das queixas mais comuns no consultório. As pessoas dizem que parece ter um dragão no estômago”, afirma o médico Laércio Gomes Lourenço, professor de gastrocirurgia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), referindo-se à sensação de queimação, que sobe do estômago em direção à garganta, e a regurgitação –quando o conteúdo ácido do estômago chega à boca.

Segundo ele, eventualmente, é normal as pessoas apresentarem refluxo quando bebem em excesso ou ingerem comidas gordurosas ou muito condimentadas. “Sobe aquele líquido amargo, que parece “queimar” a garganta”, descreve o médico.

Para o gastroenterologista Fernando Miranda Cordeiro, 65, presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia, a situação deixa de ser normal se houver azia e regurgitação duas ou mais vezes por semana.

Nesses casos, um especialista deve ser procurado para avaliar o problema e indicar o tratamento correto.

Segundo Cordeiro, a pesquisa mostrou também que a automedicação é um comportamento muito frequente entre os que apresentam os sintomas da doença do refluxo: 57% disseram que utilizam medicamentos, principalmente os antiácidos, sem orientação médica.

É o caso do ajudante-geral Jean Carlos de Carvalho, 26, que perdeu as contas das vezes que sofreu queimação no estômago. “Acho que sempre tive isso, desde criança. Sempre tomei antiácidos, mas nunca resolveu o problema.”

No início deste ano, ele atendeu aos apelos da sogra e procurou um médico. A doença do refluxo foi diagnosticada e ele passou a tomar os remédios indicados pelo gastroenterologista. “Melhorou bastante, mas é só abusar de comida gordurosa ou beber além da conta que a queimação volta”, diz.

E não é para menos. Os alimentos gordurosos e as bebidas relaxam a pressão do esfíncter, permitindo que haja o refluxo.

Os remédios inibem a secreção ácida das células e diminuem a inflamação do esôfago –o que alivia os sintomas de queimação–, mas não curam a doença.

Segundo o médico Luiz Chehter, professor de gastroenterologia da Unifesp, a DRGE é uma doença crônica, e a mudança de hábitos é fundamental para que a pessoa tenha qualidade de vida. A cirurgia, afirma o médico, é indicada para 5% a 10% dos casos.

Na cirurgia, essa válvula é refeita, e o esôfago recolocado na cavidade abdominal. “Mas a cirurgia não é 100% segura. Há casos em que a válvula volta a relaxar, com reaparecimento dos sintomas”, alerta o gastroenterologista Jaime Natan Eisig, 53, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Além dos casos mais graves de lesão no esôfago, a intervenção cirúrgica pode resolver o problema de pacientes que não querem levar uma vida de restrições, principalmente os mais jovens, de acordo com Eisig. “A moçada prefere operar a ter que ficar tomando remédio continuamente ou mudar seus hábitos”, diz.

De acordo com Lourenço, em torno de 30% dos portadores da doença do refluxo podem apresentar também sintomas extra-esofágicos, como asma ou tosse (quando o líquido gástrico reflui para o pulmão), dor aguda no peito e rouquidão (quando o ácido irrita as cordas vocais).

Para os que sofrem como eu deste distúrbio.